Novas pesquisas arqueológicas são realizadas no município de Araucária, estado do Paraná

Programa de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico é executado na área do empreendimento imobiliário Condomínio Província da Síria.

Durante a primeira quinzena de agosto de 2019, a equipe de pesquisadores da Espaço Arqueologia executou as atividades de campo do programa de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico na área de implantação do condomínio residencial Província da Síria, localizado em Araucária, estado do Paraná.

Situado à margem direita do alto curso do Rio Iguaçu, na região metropolitana de Curitiba, o município de Araucária é considerado um polo econômico do Primeiro Planalto Paranaense. Sua origem político-administrativa é resultado do estabelecimento de uma vila rural, que, segundo dados históricos, foi estabelecida por luso-brasileiros sobre uma antiga aldeia indígena, sob o nome de Tindiquera. Na segunda metade do século XIX, a vila recebe uma grande quantidade de imigrantes russos, poloneses e alemães, que contribuíram para o desenvolvimento das atividades agropecuárias na vila e seu crescimento econômico, o que, poucos anos mais tarde, mais precisamente em 1890, resultariam na emancipação do município.

Este “histórico” do município pode ser encontrado em livros e páginas eletrônicas, e tem como principais fontes os documentos escritos nos últimos 400 anos. Contudo, é possível verificar nos sítios arqueológicos elementos que contribuem com a construção desta narrativa.

Ao consultar a base de dados do CNSA/IPHAN no site eletrônico hospedado na página do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, verifica-se que, para o município de Araucária, há 12 sítios mapeados, sendo que os registros se referem a sítios arqueológicos pré-coloniais e históricos.

Os sítios pré-coloniais são, em geral, compostos exclusivamente por materiais líticos ou por associações de materiais líticos com conjuntos de cerâmica, dispostos em superfície, ou no interior de estruturas subterrâneas. Estes registram a ocorrência de um processo de ocupação que se inicia há milhares de anos com populações de caçadores-coletores e que, a partir do século V da nossa era, passa a ser empreendido por populações de horticultores.

O sítio Bracatingal, mapeado por Igor Chmyz no município de Araucária, está associado às populações caçadoras-coletoras, que ocuparam a região até, aproximadamente, 2 mil anos Antes do Presente, quando tem início o processo de ocupação pelos povos Jê Meridionais, cuja cultura material é conhecida na arqueologia como Tradição Itararé-Taquara. Considera-se sítios típicos desta tradição as estruturas subterrâneas, conhecidas popularmente por “buracos de bugre” (comuns na região de Araucária); as aldeias a céu aberto contendo fragmentos cerâmicos; e os abrigos com pinturas e gravuras rupestres.

Assim como os grupos da tradição Itararé-Taquara (Jês), os grupos da tradição Tupiguarani, ceramistas e horticultores, ocuparam quase todo o território do atual estado do Paraná. O professor Igor Chmyz noticia a identificação de quatro sítios Tupiguarani na região do Rio Passaúna, entre os municípios de Araucária e Campo Largo. De acordo com o pesquisador, os sítios associados a essas populações geralmente apresentam fragmentos cerâmicos maiores, mais espessos e com tratamentos de superfície e decorações variadas.

Os sítios históricos, por sua vez, são testemunhos dos processos culturais que ocorreram após o século XVII, quando tem início a colonização dos Campos de Curitiba. A cultura material encontrada em sítios arqueológicos históricos registra as opções e variações tecnológicas dos artefatos, instrumentos e utilitários que compunham o arcabouço de ferramentas do cotidiano das primeiras comunidades europeias que ocuparam a região. Essa cultura material, classificada como Tradição Neobrasileira, além de se referir às populações que passaram a ocupar esta região mais recentemente, resulta da miscigenação desses grupos com os povos indígenas – nativos da região – e afrodescendentes – trazidos como escravos.

Segundo o professor Igor Chmyz, nos sítios da tradição Neobrasileira mapeados no Projeto Passaúna, é possível identificar elementos de trocas culturais, uma vez que constatou-se mudanças tecnológicas na cerâmica Tupiguarani, ao mesmo tempo em que, nas vilas e povos associados às primeiras comunidades pecuaristas, a ausência de determinados elementos construtivos indica a utilização de técnicas de construção próprias dos indígenas, para o estabelecimento das casas.

No intuito de contribuir para o incremento deste panorama cronológico e cultural que vem se estabelecendo para a região, e garantir a salvaguarda e a valorização do patrimônio arqueológico, o programa de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico na área de implantação do condomínio residencial Província da Síria foi executado a partir de intervenções superficiais e subsuperficiais, em vias de verificar a existência de sítios arqueológicos na sua área de instalação.

Como resultado, nenhum vestígio arqueológico foi encontrado na área do empreendimento, contudo, destaca-se a importância do desenvolvimento de Programas de investigação como este, que prezam pela salvaguarda, preservação e valorização do patrimônio cultural do Brasil.