Arqueologia e Paisagem: apontamentos para o Planalto Norte de Santa Catarina

Análise integrada de aspectos geográficos e arqueológicos é o resultado de projeto de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico realizado no município de Porto União.

A diversidade ambiental do Estado de Santa Catarina, evidenciada desde o século XVIII por engenheiros, religiosos, naturalistas e viajantes, tem sido cada vez mais difundida e apreciada, graças às atuais ferramentas de criação e disseminação de informação. É comum, nos dias de hoje, abrir as redes sociais e ter, na tela dos diferentes dispositivos móveis, fotografias e vídeos que tem como objeto, paisagens das diferentes regiões catarinenses.

Esta postagem, como muitas outras, tem como objetivo dar destaque à uma paisagem encontrada no território catarinense, mas, mais do que sua relevância estética, vamos chamar atenção para seus atributos culturais e geológicos.

A paisagem, em questão, compreende às adjacências do rio Iguaçu, no norte de Santa Catarina, mais precisamente, no município de Porto União.

Nesta região, a equipe da Espaço Arqueologia desenvolveu, recentemente, um estudo de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico em uma área que, após seu licenciamento, se transformará em uma jazida de areia. O estudo realizado seguiu as orientações dos Art. 18 e 20 da Instrução Normativa IPHAN n° 01/15 e, como resultado, nenhum vestígio arqueológico foi identificado no terreno pretendido pelo empreendimento. Apesar de não ter sido evidenciado qualquer vestígio arqueológico na área do empreendimento, alguns aspectos ambientais e arqueológicos, merecem ser destacados.

Do ponto de vista ambiental, vale mencionar que o território de Porto União possui altitudes que variam entre 700 e 900 metros acima do nível do mar; apresenta uma rede hidrográfica complexa, com córregos e rios que desaguam nos rios Iguaçu e Negro; e a vegetação é características das terras altas, com florestas de araucária e campos úmidos. A geologia, por sua vez, é formada por rochas sedimentares antigas da Era Paleozoica (cerca de 300 a 250 milhões de anos atrás), e por areias trazidas e depositadas nos últimos milhares de anos pelo rio Iguaçu, formando extensas planícies.

Com isso, boa parte dos terrenos são formados por solos arenosos, com pouca disponibilidade de rochas de boa qualidade para a produção de artefatos líticos lascados, por exemplo. Por outro lado, o mesmo rio Iguaçu, que traz muita areia e a deposita em suas margens, já trouxe e ainda traz seixos de rochas cristalinas boas para o lascamento; com isso, as margens do rio Iguaçu, se tornam bons locais para captação de recursos, seja para a produção de cerâmica (argila), seja para a produção de instrumentos em pedra (seixos).

Distanciando-se da margem do rio Iguaçu, em direção a sudeste, passam a ser encontrados os vales mais fechados, cercados por grandes colinas que evidenciam o contato entre as rochas mais antigas (granitos) e as rochas sedimentares. Nelas, podem ser encontrados blocos de rochas e minerais de maior qualidade para a produção de materiais líticos.

É nessa parte do território de Porto União, mais precisamente na localidade de Santa Cruz do Timbó, que a Espaço Arqueologia desenvolveu estudos no início da década de 2010, e estudou vestígios arqueológicos associados a populações de caçadores-coletores antigos, demonstrando que, nessas áreas, a ocupação humana começou há milhares de anos. Os resultados dessa pesquisa, podem ser consultados no livro “Um olhar sobre o processo de ocupação de Porto União”, organizado pelos arqueólogos Valdir Luiz Schwengber e Raul Viana Novasco (link aqui), onde, além de informações sobre a arqueologia local, há textos muito interessantes sobre a história recente da região.

Voltando para as margens do Iguaçu, sobre as planícies e vales abertos, poucas pesquisas foram realizadas, mas, com elas, foi possível encontrar vestígios de povos que tinham sua economia baseada na caça e na coleta associada à cultivos, tais como as populações Jê Meridionais e as Guarani. Essas populações, segundo a bibliografia, chegaram nessa região há cerca de 1500 anos e, aos poucos, foram tomando conta dos territórios que antes pertenciam aos caçadores-coletores. Os Jê Meridionais ainda se fazem presente na região, com famílias da etnia Xokleng, que ocupam a Terra Indígena Rio dos Pardos.

Em suma, o que se quer dizer é que o município de Porto União apresenta uma grande diversidade geológica, que compõe uma paisagem complexa, formada por planícies extensas e vales encaixados que, dadas suas particularidades, oferecem diferentes recursos às populações humanas. Com isso, acompanham essa diversidade ambiental, a diversidade arqueológica que, com a realização de novos estudos, poderão trazer respostas sobre a forma como as pessoas se relacionaram com essa paisagem ao longo dos últimos milhares de anos.